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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As razões de Eduardo


A rotina sempre  satisfazia, o modo como acordava. Pegava o copo, adicionava leite, colocava o achocolatado em sequência, fazia parte de um dos seus prazeres. Logo após sentava em frente a tv, e com o chocolate (gelado) entre as pernas assistia o noticiário de São Paulo, ficava preocupado, indignado com tamanho trânsito, mesmo sem importar. Ele não morava na cidade grande, vivia numa cidade pequena, fazendo proveito das pequenas festas comemorativas. Mas aquilo sempre o agradava, a rotina sempre satisfazia, tanto, que o deixava incomodado. O cotidiano não saciava o improvável, fechava todas as portas, apertava os dias com uma corda, nunca deixava o acaso acontecer. 

Foi num tempo desses que ele percebeu, sentado no escritório com a gravata sufocando, talvez pelo calor do lado de fora. 

- Estou cansado. -disse para si mesmo quase que num sussurro. Ora Edu, cansado de que? Suas contas estão em dia, seu apartamento com uma aparência simpática, roupas de belo agrado, cheias de marcas que os amigos indicaram, nos finais de semana sai com colegas, ri da desgraça alheia, aproveita os dias de sol no litoral. Cansado-do-que? Ele nem tinha resposta, igual a maioria. Estava cansado de estar cansado, assim como descansar cansa. E quando notou que recusava dar satisfações a alguém, além de si mesmo, saiu. 

Saiu da cadeira e foi até a janela do escritório, é claro. Não poderia largar tudo, ou poderia? Acontece que ele estava de saco cheio, se quer aguentava aquele trabalho, fazer sinopse para a editora de livros?! Eduardo queria mais é escrever o próprio livro! Sobre o que? Podia deixar isso para depois. 

Então, se debruçou sobre a madeira, tomou um vento legal na cara e entendeu aquilo como um sinal! ACORDA! Pegou a bolsa em sua mesa, ajeitou o óculos, tentou parar de pensar em todas as consequências, pigarreou e finalmente saiu. Para onde eu não sei, talvez voltasse amanhã mesmo com alguma desculpa esfarrapada. As vezes broxamos em certas decisões, acho que é medo da perda. 

O fato é que saiu, meio sem jeito, com a cabeça levantada quase a desabar. E as razões de Eduardo? Quais seriam? Edu não tinha, alias, priorizar a vida é uma razão não é?

- Mesmo que tempo seja a vida – pensou ele - precisamos dele para descobrir realmente como viver. – Então bateu a porta do escritório.

sábado, 30 de agosto de 2014

Lola Diz: O sentido


Eu vivo pelas manhãs, mesmo acordando tarde. Vivo pela luz ingênua que ilumina parte da janela, corredores da cidade. Clareia o rosto de quem sofre, a alma de quem se cansa, independente da classe, cor ou gênero. Inocente feito criança, transformadora feito a arte. 

Não sei o certo qual nome dar à sensação que me eleva todos os dias ao ver o brilho. Esperança talvez. Essa devoção deve ser por  gostar do jeito que ele brinca com as sombras, o gingado de se infiltrar nos espaços daquele colchão azul. Nasce até posteriormente de uma terrível tempestade. Em todos os dias cômodos e rotineiros da minha vida. Eu vivo pelas manhãs Sr. Brochura. 

E parece coisa de doida, porque só percebi a importância desse fenômeno dias atrás, muitas horas antes, da para acreditar?! Passei anos da minha -ainda curta- jornada tentando descobrir o sentido de estarmos aqui, agora, lá, naquele momento, quando estava tudo ali, escondido nas pequenas partículas que flutuava dentre os clarões das oito da manhã, o sentido está ali. O significado dessa passagem incerta se habita no sol, na luminosidade de cada data, na apresentação de mais um tempo para se viver, possibilidades para se criar e  por fim conclui que tecnicamente não existe sentido, existe razões. Instantaneamente fiquei perplexa, depois contente. Como fomos tão cegos?

Assim desisti a um longo prazo de procurar definição para minha existência, já que agora tenho uma teoria bem válida em minhas mãos.Vou manter-me das gratidões que o raiar proporciona e só. 

PS: Desculpa por compartilhar minha descoberta bem tarde, queria ver até aonde a loucura por explicações iam levar todos, porém, me dei conta que você é apenas uma espécie de diário encubado, então decidi te escrever. 

PS2: Espero que daqui em diante possamos ver o nascer do dia como a chance de fazermos coerência a algo.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Lola Diz: Porque eu amo borboletas


Eu amo borboletas. Quero deixar bem claro Sr.Brochura o meu amor por essas criaturinhas alucinantes. Você não acha bonito o jeito que elas perambulam por ai se perdendo entre as flores? 

Le-pi-dó-p-te-ros, era como meu avô chamava, não é intrigante? Sempre admirei o modo de como são coloridas, de como me davam sorte ás vezes que pousavam no meu ombro rapidamente, ou dos momentos em que revestiam meu estomago quando iria falar com alguém especial. Elas são especiais. 

O fato é que são mais semelhantes ao ser humano do que qualquer outro animal, é verdade senhor! Já ouviu falar da tal: Metamorfose? É algo como: Ovos, lagarta, casulo, borboleta. 

Estive pensando, como nós passamos por constantes "metamorfoses", lentamente vamos mudando, minhas conclusões, opiniões acabam se tornando mais frágeis do que papel a cada instante. E por um determinado período dependente resolvemos nos arrastar por ai, ter crises de risadas e também humor, criar, imaginar, descobrir, sorrir, chorar, planejar o amanhã, até chegar um dia em que tomamos consciência de que nada nesse mundo é justo ao ponto de concluir qualquer certeza. Nada. Ai, por fim - quando criamos certa idade- achamos que estamos libertos, livres, mas não é bem assim não. 

Certo dia estava andando pela rua e encontrei a asa de uma borboleta alastrada no chão. A liberdade é uma palavra significante para uma soberania passageira, nunca poderá ser eterna como o amor ou talvez a morte. Eu senti ódio naquela tarde, depois um pouco de frustração, é difícil aceitar a ideia que devemos ser cuidadosos até com o que nos faz feliz. 

Pois bem meu senhor, é por isso que eu amo as borboletas, elas me ensinaram que todas as coisas sempre se transformam em seu devido tempo, lugar, circunstância, e que a final, nem tudo precisa ser eterno para ser bom, ou, bom o suficiente para nos livrar de qualquer mal.

Ps: Também gosto de algumas mariposas.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Lola diz: sobre o amor



Pois bem, te garanto, não estou aqui atoa, alias, tenho inúmeras coisas importantíssimas para fazer. Todavia me peguei pensando e com os dedos coçando para escrever desde que o vi jogado no quarto dos fundos, do lado da minhas atividades escolares antigas. Ora, mas que desespero mais importuno que o senhor me causou com essas folhas desbotadas e capa cheirando a mofo, vê se pode! Você me intrigou sr. Brochura, me pareceu um lugar ótimo para deixar meus segredos encurralados, minhas loucuras seguras. Mas... Sabe o que realmente vem me intrigando dentre toda a minha vida? Mais do que uma curiosidade passageira, mais do que todas teorias humanísticas, é o amor. 

As vezes senhor, acho que pensar sobre esse sentimento é tão inútil quanto ofuscar a luz do sol com a peneira, no fim essa claridade alcança todos os seres de alguma forma. Mesmo assim, ainda me desperto com isso, é que ocasionalmente parece que só é noite, o tempo não colabora, ai qualquer oportunidade de estar atoa se carrega a questionamentos, pergunto: Porque esta sintonia complexa e ao mesmo tão simples no amor?

Chega uma época meu senhor, que o colo integro de nossos pais não basta, as roupas no guarda roupa não lhe agrada, e sua dependência não o satisfaz, é nesse tempo que queremos mais do que um agrado rotineiro, é nessas horas que desejamos sofrer loucuras, dores, para compartilhar uma lembrança, é nesses minutos que queremos nos apaixonar, gostar de um desconhecido, desagarrar da fissura do mundo por longos beijos e abraços. 

Sabe meu caro senhor, isso tudo é tão complicado, entender o amor é mais confuso que o próprio. Tenho dúvidas que sequer podem ser cogitadas pelos amantes, ou identificada por quem também sofre da dor. Um sentimento assim que avassala todos mas não iguala ninguém. Qualquer dia ainda há de eu compreender, assim como Platão por si compreende Eros, de um jeito único, talvez, compreensível só aos meus olhos, com a certeza de encontrar algo louco, um pouco mais para insano, sendo assim o amor!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Posição de náufrago


     Era a terceira vez que chamava o nome dela e enquanto batia impaciente a moeda no balcão de acrílico senti alguém se aproximar.

     - Doces mais uma vez? Isso não me parece uma boa ideia. - Olhei para o lado seguindo a voz. Meu olho estava encolhido pelo sol. Fora a visão de um perfil lindo que observava as guloseimas na prateleira. Voltei para a moeda em minha mão preocupada. “Feito, um garoto bonito que agora acha que você esqueceu os óculos de grau em casa” pensei. “Não irei me atrever a virar novamente”.

     - Acho que não há ninguém, não é? – Disse olhando para mim. Virei-me e respondi.

     - Tem sim, ela só é um pouco desligada, vive perdendo clientes por isso. – Ele riu, fora um sorriso tão brilhante quanto seus olhos, e eu havia de ter certeza que não foi o sol ou minha fascinação que o iluminava. Algo puxou sua camisa.

     - Vai demorar de mais Miguel? Quero meus doces. – Reclamou a criança ao seu lado que logo se emburrou na parede sem respostas. Eu ri.

     - É seu irmão? – Perguntei mesmo um pouco pasma com minha coragem. Miguel sorriu e se virou ao pequeno. – Não, esse guloso é apenas meu primo!

     O silêncio então chegou, peguei o celular para ver as horas, o tempo em que eu iria estender para continuar ali, sem jeito, porém querendo ficar.

     - The walking dead? – Perguntou apontando para meu papel de parede. Olhei, e mesmo que talvez perdida em seus olhos azuis respondi:

     - Sim! – sorri. – Bom gosto! – Ele retrucou.

     - Obrigada, digo o mesmo a você. – disse.

    - Ouvi alguém me chamar?! – Era Cida, a dona da bomboniere que me fez sonhada por uma sequencia impercebível de minutos. Pedi o meu sorvete sabor chocolate e ele as tantas balas e chicletes que seu primo desejara. Dei minha moeda e sai.

     - Até mais... – ele pausou e colocou a mão na testa – Manuela! Até Miguel! – Completei enquanto ele acenava.

     Naquela noite pensei em todas as possibilidades de encontra-lo de novo, relembrei por mais dez vezes aquelas palavras que talvez pudesse chamar de diálogo, imaginei como ficaríamos juntos. Coisa de louca, coisa do coração. Nunca mais o vi, nem em ruas ou em paralelas de redes sociais. Bem mais tarde, após noites esquecendo e segundos relembrando, percebi que cairá em um truque da vivencia. A partir do naufrágio do menino sorridente, cada olhar bonito que passava por mim entre placas, lojas, balcões me fazia segurar entre pensamentos a tentação da ilusão, a fim de conseguir um amor verdadeiro. Bobagem. Essa paixão que a gente sonha, a qual trará dias sofridos, meses felizes, não vêm com receita, superstição, regrinhas de revistas, apenas com ordens, ordens do amor, esse sentimento que é o que é e ponto, seja esperado, ou inesperado. Lotado de exceções, vazio de restrições, ora náufraga quem é errado e quem achamos que é certo."Náufraga até mesmo os pretendentes com nomes de anjos” – Pensei alto.